Ser considerada verdadeiramente "Mulher" vai além muito além de ter nascido com o sexo feminino... É uma construção! É o fortalecimento baseado no lastro do que já se viveu, nas experiências e em como se "vive a vida". (Maria da Glória Alpendre Silveira)
Maria da Glória Alpendre Silveira fala de sua infância com humor e alegria, e sorri com se estivesse vendo o passado em tempo presente.

Nasci em 27 de agosto de 1927. Por volta dos seis anos de idade morávamos no Central onde hoje estão as ruínas da Usina de Açúcar, onde na época havia um campo que ia até o Engenho de Pinga do Central. Muito movimentado, o lugar era cheio de idas e vindas das carroças que transportavam cana, chegando a fazer fila. Entre elas, a de meu pai que gostava muito de animais, pois os cavalos dele e de seu Jango Fante eram os mais bem tratados... Dava gosto de ver!

Fazia parte do nosso trabalho, entre outros, cortar e trazer o feixe de capim nas costas, cortar miúdo no cortador de duas facas - que por sinal era muito pesado - dar de comer os animais e "fazer a cama" dos mesmos. Vivíamos da lavoura, pois tínhamos de tudo, apenas comprávamos o açúcar, o sal e o trigo. Piloávamos o arroz, conhecido como 11 ‘arroz crioulo’, assim como o café. 0 fubá era obtido ‘as meias’. 0 milho era levado ao moinho do Cavagnolli, onde hoje é a casa do Arildo. Metade ficava com ele e a outra metade voltava para nós em forma de fubá.

Estudei na Escola Miguel Scheleder, no local onde hoje é o Colégio Rocha Pombo. Na época Dona Mana Luíza Merkle era a Diretora.

A família mudou-se para a cidade, na Visconde do Rio Branco, ao lado de onde hoje está estabelecida a loja do Aramys Zanardi, e a outra entrada era pela Rua XV de novembro, hoje farmácia do Willians, onde tínhamos o bar.

Nesta época, veio o circo, e claro, meu pai Antônio levava-nos para ver a "função". Só que quase todo dia, quando levavam os bois para o matadouro - na estrada de Porto de Cima - um ou outro fugia. Nesse dia em particular, talvez atraído pelo barulho ou pela música, um boi fujão acabou entrando no circo. Seu Félix gritou: - "0 boi fugiu!!!!" No meio de todo o corre-corre e dos gritos de - "Meu Deus. Acuda!” ...meu pai me viu dar uma cambalhota no ar e ser atirada contra a bilheteria pelos chifres do dito cujo boi fujão, o que me rendeu perda de alguns dentes e alguns pontos feitos "ao vivo e a cores" pelo Dr. Domício.

Certa manhã acordamos e não encontramos mamãe e nem papai, depois soubemos que ele a teria levado às pressas para o hospital em Curitiba culminando em uma cirurgia.

Tínhamos quatro hóspedes que necessitavam de atendimento. Com um caixote na frente do fogão, o peso da responsabilidade me obrigou a cozinhar para os meus primeiros hóspedes. Arroz, bife, feijão, salada, orientados por um deles,João Kubak.

Levávamos água para fornecer as pessoas que nos pediam, inclusive as mensalistas e lavava-se a roupa no rio molhando as pernas e parte do vestido. Uma vez levei e induzi Izaura, minha irmã, a tomar banho de roupa e tudo, para depois dizer a mamãe que escorregamos no rio. Dito e feito. Demos a desculpa esfarrapada e que parecia mais que plausível... mas não por muito tempo. Depois que eu estendi toda a roupa na corda, fomos agraciadas com uma bela surra a base de cinto de couro e fivela. Merecemos... (risos).

Vale a pena lembrar que, “água para tomar" era pega do trem abastecido na serra ou no "olho d'água da Raia Velha". Na época não havia geladeira, o gelo vinha em barras de Curitiba no trem das 9:30 h, e seu Borges entregava diretamente em casa. As bebidas eram entregues especialmente para o nosso bar.

Papai resolveu pegar o Operário para "tocar". Tínhamos que lavar e encerar o salão. A água, buscávamos na fábrica perto da Estação Ferroviária e lustrar o salão era uma brincadeira já que colocávamos nossos irmãos menores sentados em um pedaço de feltro, que puxávamos de um lado para outro, a custo de gritos, risos e gargalhados.

Enchíamos de água os barris com torneiras para a lavagem dos copos. As cervejas eram colocadas em tinas com barras de gelo e serragem. Quando faltava a cerveja "Faixa-azul" (preferida dos consumidores da época). A água da tina ficava com muitos rótulos soltos, e, com o aparecimento da cerveja "Pomba", colocávamos os rótulos da "Faixa-azul" nesta última e perguntávamos se estava boa. Sempre a aclamavam como "ótima!".
Comprados todos os móveis e utensílios do "Hotel Central" (local onde D. Pedro pernoitou) mudamos para onde hoje está a atual Caixa Econômica para morarmos ali por aproximadamente cinco anos, sempre trabalhando no mesmo ramo - comércio hotel e restaurante.

Motivado pelo calor, uma noite papai resolveu descansar no gramado na beira do Rio Nhundiaquara. Constatou que não havia pernilongos e interessou-se em comprar o prédio abandonado pertencente a um “Quinta Coluna” (estrangeiro que não poderia adquirir nada em seu nome).

Compramos. O Hotel Nhundiaquara foi o lugar que por muitos anos abrigou famílias ilustres que vinham passar o inverno nesta região. Como mais velhas, eu e Izaura ficamos com todo o serviço do hotel para que os outros irmãos tivessem oportunidade de estudar. Nessa época, professoras que vinham estagiar, o padre Camargo e viajantes... Todos desfrutavam dos nossos serviços.

Tínhamos uma paixão: Ir ao cinema com o dinheiro das gorjetas para assistir àqueles filmes que terminavam em suspense para continuar na próxima semana. Antes tínhamos que executar todo o serviço e mamãe só nos deixava sair em cima da hora; só que já estávamos moças e continuávamos a pagar meia-entrada. Mas para isso entregávamos rápido os bilhetes e quando davam por nossa falta, já estávamos dentro. Até que um dia eu consegui passar, mas Orlete Antunes segurou Izaura pelo casaco. Resultado: eu assisti o filme e Izaura ficou do lado de fora. A partir daí, o recurso foi pagar "inteira".

Papai morreu em um acidente no sítio da família que ele sempre fez questão de preservar. As responsabilidades aumentaram. Não tínhamos empregados e fazíamos tudo, desde trabalhar na cozinha, na limpeza da casa, rachar lenha e servir os hóspedes. Ali!!!!! ...sem esquecer que os talheres eram areados com cinzas. Fazíamos o Barreado que, desde criança vi papai preparar, mas não servíamos todos os dias como hoje... Talvez por não fazer parte de um cardápio definido.

Namorei e casei com Joel Costa Silveira, um antoninense radicalmente apaixonado por sua terra; hoje, já "no andar de cima".

Tive quatro filhas, que exigiram de mim um desdobramento ainda maior para dar conta das atividades que até hoje me envolvem, desde que assumi continuar o trabalho de minha mãe Amália Martinha Alpendre, no Hotel e Restaurante Nhundiaquara. Meninas, necessitando de orientação, educação e acompanhamento escolar... A noite ajudava-as nos trabalhos da escola até que as tarefas ficaram além do meu "conhecimento". Então, comprava livros para facilitar-lhes as pesquisas. Adolescentes, com os arroubos da idade e eu assoberbada de trabalho, procurei vários caminhos para não deixar longe de mim o coração de minhas filhas, ou o vazio de uma mãe ausente.

Passamos juntas "poucas e boas". Filhas, genros e netos dentro do possível, que até hoje estão comigo todos os finais-de-semana, deixando seus afazeres para ajudar no restaurante.
Hoje com 80 anos de idade, penso em pessoas que se vêem de mãos vazias, que quando se reportam à sua trajetória, ao seu passado, demonstram mágoa e insatisfação.

No meu caso, digo rindo que... SE NECESSÁRIO FOSSE FARIA TUDO DE NOVO!




Maria da Glória, hoje é um símbolo!

Um espírito de mulher que se moldou no trabalho duro, oportunidade de vida que se apresentou para que se obrigasse a "estar à frente", inclusive reconhecida como uma das pioneiras do Barreado em restaurante.
Uma vida que faz parte da nossa história... História de Morretes!

Com seu espírito empreendedor, tem reconhecimento internacional, traduzido para nós quando aparecem turistas das mais diversas nacionalidades e apontam em algum lugar do "livro guia" num português sofrível, mas com algum carinho e confiança: -"Prrocurrar dona Golórriaaa...”

Ela não sabe falar língua estrangeira alguma, mas comunica-se com facilidade e da mais simples maneira: Falando pausado e usando mímica.

Recebeu por sete anos consecutivos 0 "Prêmio Qualidade Brasil" do "International Quality Service" entre outros, deu inúmeras entrevistas nas diversas emissoras de rádio e televisão de Curitiba e de outros Estados, inclusive no programa “Mais Você”, da apresentadora Ana Maria Braga.

Na verdade nos seus 80 anos, e nos seus olhos cor-de-mel, ainda podemos encontrar a menina, hoje mulher sentada num galho de goiabeira a balançar ... Acalentando seus sonhos através desse grande transporte para uma linda viagem imaginária.

Alguém disse "que não passamos pela vida, mas é ela que passa por nós"... E é por isso que deixamos registradas as próprias palavras de Maria da Gloria Alpendre Silveira, que nunca deixou de acreditar em seus sonhos: "- Se necessário fosse, faria tudo de novo..."